Empresas brasileiras avançam na gestão de emissões de carbono

Programa Brasileiro GHG Protocol destaca resultados dos inventários de gases de efeito estufa de 142 organizações e debate o potencial das fontes renováveis para geração de energia e redução de emissões no país 16/08/2017
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Por Oscar Freitas (GVces)

A mudança do clima é uma realidade e seus impactos são motivo de grande preocupação para governos, empresas e cidadãos em todo o mundo. O principal desafio contemporâneo da humanidade é reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), de maneira a conter o aumento da temperatura média do planeta nas próximas décadas. No entanto, para executar ações efetivas, é preciso começar a gerir tais emissões, e o primeiro passo para isso é levantar o quanto e onde elas acontecem. 

O Programa Brasileiro GHG Protocol procura facilitar esse primeiro passo. Em seu 9º ano de atividade, esta iniciativa do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP (GVces) tem por objetivo promover uma cultura de inventários corporativos de GEE no Brasil, auxiliando organizações públicas e privadas na mensuração, relato e verificação de suas emissões. O inventário abre possibilidades na busca por mais eficiência, por inovação no processo produtivo e no desenvolvimento tecnológico, além do aprimoramento da gestão de emissões das organizações.

Os resultados dos inventários de emissões de GEE relativos a 2016 foram apresentados no dia 10 de agosto, no Evento Anual do Programa, realizado no auditório da FGV EAESP em São Paulo. Além de destacar os principais números deste ciclo, o evento também discutiu os caminhos, os desafios e as possibilidades das fontes renováveis para a geração de energia e para o cumprimento da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada, sigla em inglês) brasileira dentro do Acordo de Paris.

MAIS ORGANIZAÇÕES RELATAM SUAS EMISSÕES

Nos últimos anos, o poder público em diversos estados brasileiros tem incentivando a iniciativa privada a mensurar, relatar e verificar (MRV) suas emissões. Por exemplo, os estados do Paraná e Minas Gerais oferecem descontos em taxas e encargos para empresas que elaboram inventários de GEE. O estado de São Paulo solicita informações de emissões das organizações de determinados setores de atividade e no estado do Rio de Janeiro, a liberação de licenças ambientais está atrelada ao envio dos inventários de emissões, também restrito a alguns setores. Esses estados recomendam o GHG Protocol como metodologia.

Assim, ano após ano, mais organizações buscam o apoio do Programa Brasileiro GHG Protocol para desenvolver seus inventários de GEE e aprimorar a gestão de suas emissões. Neste ciclo, 142 organizações (crescimento de 3% em relação ao ano passado) submeteram 327 inventários referentes às diferentes unidades e operações.

As emissões relativas a esse grupo de organizações em 2016 chegaram a 155,9 milhões de toneladas de CO2 equivalente (tCO2e), representando o equivalente 13% do total nacional (sem incluir as emissões decorrentes de mudança no uso da terra). Para termos uma noção da relevância deste dado, as emissões relatadas ao Programa Brasileiro neste ano superam os números de 150 dos 195 países signatários do Acordo de Paris – ou seja, as ações de redução empreendidas por estas organizações podem gerar grandes impactos na luta contra a mudança do clima.

“Não trazemos esses números com um viés de preocupação, de apontar o dedo. Pelo contrário, esse grupo está publicando essa informação. Mostra a oportunidade que existe, em torno dessas organizações, de direcionar a economia brasileira para uma economia de baixo carbono”, afirma George Magalhães, gestor do Programa Brasileiro GHG Protocol.

Além das emissões diretas (escopo 1) provenientes de fontes controladas pela organização, são contabilizadas as emissões relativas à compra de energia (escopo 2) e as emissões indiretas (escopo 3) que ocorrem na cadeia de valor da organização. Elas somam 6,7 milhões de tCO2e e 1.005,8 milhões de tCO2e respectivamente.

A preocupação sobre o tema não é exclusividade das grandes empresas: 63 empresas do grupo emitem menos de 5 mil toneladas de CO2e enquanto existem 24 que emitem mais de 500 mil toneladas de CO2e. A participação de empresas de menor porte adiciona informações importantes e mais transversais da cadeia de valor, além de garantir um ambiente mais propício para inovação em conjunto com as grandes empresas.

Os inventários melhoraram em qualidade e abrangência de sua informação. No último ciclo, 98% dos inventários foram completos, ou seja, contabilizaram todas as emissões de escopo 1 e 2 das organizações. Destes, 52% são selo ouro, com verificação por terceira parte acreditada pelo INMETRO e 46% são selo prata, sem a verificação. Apenas 2% são inventários incompletos (selo bronze). George Magalhães ressaltou a importância dos inventários bronze e prata como um aprendizado para a melhorar os futuros relatos.

O último ciclo também foi marcado pela adoção do guia de contabilização e relato de emissões e remoções agrícolas e de mudança no uso do solo. Como resultado, as remoções relatadas superaram em mais de 2.000% as emissões relacionadas às essas categorias – o Programa Brasileiro tem evoluído na forma de relato para proporcionar instrumentos de gestão mais adequados, reforçando os aspectos positivos das atividades das organizações membro.

Os inventários das 142 organizações estão disponíveis no Registro Público de Emissões.

DESAFIOS E POSSIBILIDADES DAS ENERGIAS RENOVÁVEIS NO BRASIL PARA O SETOR PRIVADO

O uso de energia também é um espaço de oportunidades de mitigação de emissões. Os membros do Programa somam 15% da energia consumida no país, desconsiderando o uso doméstico. Por isso, para 2018, uma das novidades do Programa Brasileiro será o desenvolvimento e a publicação de novas diretrizes para discriminar fontes de energia utilizadas, de modo a incentivar o consumo de fontes renováveis de energia.

Das organizações que relataram compra de energia renovável por autoprodução (78%) e compra de energia no mercado livre (22%), a grande predominância é de energia vinda de fontes hidráulicas (78%), seguida por geração a partir de biomassa (43%).


Para destacar as oportunidades de investimento na área (seja através do mercado livre energia ou de leilões), o Evento Anual também realizou um debate que contou com a participação de Solange David, vice-presidente do Conselho de Administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Ricardo Gorini, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e de Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

A matriz energética brasileira tem uma grande participação de fontes renováveis, puxada, principalmente, pela energia hidráulica, contudo o país possui recursos para crescer a participação de outras fontes. “Tivemos um grande crescimento de fontes de energia renovável na matriz elétrica brasileira a partir de 2008 em razão de uma definição política de renovar a matriz com a inserção, especialmente, de eólica e de dar incentivos aos consumidores para que consumissem fontes renováveis”, comenta Solange David.

Mas a renovação da matriz não é um papel apenas do governo, Rodrigo Gorini lembra da importância das empresas. “A nossa NDC tem uma correlação direta com a questão energética, com a questão de emissões. E, na verdade, são as empresas que vão executar o que a gente [o governo] está olhando para frente, como visão de futuro. Essa relação de empresa e o planejamento é fundamental”, afirma diretor de Estudos Econômico-Energético e Ambientais da EPE.

A energia eólica ganha destaque crescente na matriz elétrica nacional. Hoje atrás apenas das fontes hidráulica e de biomassa em termos de capacidade instalada no Brasil, a eólica proporciona um dos maiores potenciais de investimento e de crescimento, sendo a fonte que mais cresceu nos últimos anos. Atualmente, a capacidade instalada de energia eólica no país se equipara à recém-construída usina hidrelétrica de Belo Monte.

“A energia eólica, em pico, tem atendido cerca de 56% da necessidade de energia do Nordeste. Se nós não tivéssemos parques eólicos hoje no Nordeste, nós estaríamos já com racionamento ou, então, gerando térmicas caras, com emissão de CO2”, afirma Elbia Gannoum.

Esse potencial de crescimento se deve às condições do vento no país: fortes, constantes, unidirecionais e de bastante previsibilidade, que garantem uma alta produtividade por máquina, o que faz a energia eólica brasileira a mais barata do mundo.

As vantagens também são socioeconômicas, visto que o maior potencial de produção eólica se encontra no sertão nordestino, exatamente onde há mais carência de investimento e oportunidades. A instalação de parques eólicos, nesta área, gera renda extra aos pequenos produtores rurais através do arrendamento da terra, promovendo a fixação do homem no campo, além de não concorrer com as atividades econômicas da região, o que ocorre com outras fontes de energia.

Outro palestrante do evento foi o Professor Eduardo Diniz, da Fundação Getulio Vargas, que inseriu a ideia do uso do protocolo blockchain como uma forma de modernizar a contabilidade de transações.

Uma aplicação desta provocação no cenário de energia é a possibilidade da formação de micro grids independentes da rede, na qual seria possível distribuir energia gerada localmente em uma rede de pessoa para pessoa, reduzindo perdas e incentivando a geração de energia por fontes renováveis – o que já está sendo feito em algumas iniciativas ao redor do mundo.

Fotos: Piti Reali/FGV EAESP

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