Evento Anual apresenta resultados dos inventários 2015 do Programa Brasileiro GHG Protocol

Mais de 135 organizações publicaram inventários de emissões relativos ao ano passado; Evento destaca avanço na gestão empresarial de emissões e traz reflexão sobre oportunidades de atuação no contexto do Acordo de Paris 10/08/2016
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Evento Anual apresentou os resultados dos inventários publicados pelos membros do Programa Brasileiro neste ano (foto: Yantra Imagens/Divulgação GVces)
Local: Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP
Data
: 08 de agosto de 2015 Projeto: Programa Brasileiro GHG Protocol Participantes: Público em geral Palestrantes: Annelise Vendramini, Aron Belinky, George Magalhães, Guarany Osório e Mariana Nicolletti (GVces);
Antônio Carlos Cascão (Hospital Sírio-Libanês) Texto: Bruno Toledo (GVces)
Fotos: Yantra Imagens

Mesmo em um cenário macroeconômico complicado para o Brasil, o setor privado nacional mantém-se interessado na gestão de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) - inclusive como uma forma de melhorar processos operacionais. Um reflexo desse interesse está nos resultados do ciclo 2016 do Programa Brasileiro GHG Protocol, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces): neste ano, 20 novas organizações aderiram ao Programa e iniciaram seus esforços para mensurar, relatar e verificar suas emissões de GEE.

Os resultados dos inventários referentes a 2015 foram apresentados no dia 08 de agosto passado durante o Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol, realizado no anfiteatro do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

PRINCIPAIS RESULTADOS E DESTAQUES DO CICLO 2015-2016

A adesão de 20 novas organizações ao Programa Brasileiro GHG Protocol neste ciclo recente sinaliza que o mercado continua interessado na gestão de suas emissões, mesmo no cenário de crise econômica atual. Isso mostra o potencial que temos para crescer e para difundir a cultura de inventários de emissões no Brasil.

George Magalhães, gestor do Programa Brasileiro GHG Protocol, durante o Evento Anual

Neste ciclo, 336 inventários foram publicados por 136 organizações membros, que foram incentivados a publicar inventários desagregados por empresa ou operação (20% das organizações fizeram isso neste ano). Em termos de inventários, houve um aumento de 7% no número de documentos submetidos e publicados no Registro Público de Emissões, com relação ao último ciclo. Em termos de participação, mesmo com a saída de 17 organizações, a entrada de outras 20 no Programa resultou no crescimento de 2% na adesão. Desde 2008, quando foi realizado o primeiro ciclo de inventários de GEE, o número de organizações participantes do Programa cresceu 400%.

Os dados consolidados indicam que esse grupo de organizações emitiu em suas operações (escopo 1) mais de 98 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) em 2015, montante que representa 9% das emissões nacionais de GEE (com base nas informações do Sistema de Estimativas de Emissões de GEE/SEEG do Observatório do Clima), excluindo-se as emissões por mudança no uso da terra.

No grupo de 136 organizações do Programa, as indústrias de transformação são as mais representativas, com 48 membros, seguidas pelos setores de atividades financeiras, de seguros e serviços (15) e de eletricidade e gás (12).

A maioria esmagadora dos inventários publicados no RPE (94%) neste ano estão completas - ou seja, trazem todas as informações sobre as emissões de escopo 1 (emissões diretas), 2 (emissões por consumo de energia). Do total, 49% dos inventários publicados estão completos e verificados por terceira parte acreditada (recebendo, assim, o Selo Ouro do Programa); 45% estão completos, mas não foram verificados (Selo Prata); e os 6% restantes estão parciais (Selo Bronze).

Outro fato interessante é que 88% das organizações incluiu em seus inventários ao menos uma fonte de emissão da cadeia de valor (escopo 3) que, apesar de ser mais difícil de se gerir do que as emissões de escopo 1, possuem um papel importante no engajamento e difusão de práticas de gestão de emissões entre os elos das cadeias de valor.

Olhando para os resultados finais nos três escopos, George Magalhães, gestor do Programa e pesquisador do GVces, destacou a importância das ações internas das empresas no atendimento aos compromissos nacionais assumidos no âmbito do Acordo de Paris, a necessidade de incentivo positivo no mercado para as organizações que consomem energia renovável e o papel da gestão de emissões nos transportes como ponto de partida para influenciar boas práticas ao longo da cadeia de valor.

NOVIDADES PARA 2017

O Programa Brasileiro GHG Protocol também apresentou no Evento Anual algumas novidades para o ciclo 2017.

No próximo ciclo, as organizações membros do Programa serão obrigadas, caso seja aplicável, a utilizar o protocolo para contabilização de emissões na agropecuária. Para tanto, a equipe do GVces promoverá uma nova oficina de capacitação para os membros sobre os conceitos e a aplicabilidade das diretrizes definidas pelo World Resources Institute (WRI), além de oferecer apoio técnico para o uso de ferramentas aplicáveis ao cenário brasileiro.

Outra novidade importante para o próximo ciclo é a criação de um grupo de trabalho para a construção de uma proposta para contabilização de consumo de energia renovável no Brasil. Esta iniciativa atende à necessidade identificada pelos membros neste último ciclo de criar uma sinalização positiva para as organizações que consomem energia renovável.

O Programa continuará apoiando o programa de acreditação de organismos de verificação (OV) junto ao Inmetro, com a elaboração de notas técnicas de apoio e a realização de workshop com os atores envolvidos no processo de acreditação.

Por fim, outra frente do Programa no próximo ciclo é o desenho de um projeto de engajamento de elos da cadeia de valor de grandes empresas para publicação de inventários, em parceria com o CDP Supply Chain e com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

ACORDO DE PARIS E OPORTUNIDADES DE ATUAÇÃO PARA O SETOR PRIVADO BRASILEIRO

O Brasil pode ser mais ambicioso em suas metas no Acordo de Paris, mas precisamos ter consciência de quanto isso custaria e quais seriam os meios de implementação, para embasar essa ambição de forma realista. Esta é a nossa lição de casa, e precisamos envolver as empresas e a sociedade civil neste esforço.

Guarany Osório, coordenador do programa Política e Economia Ambiental do GVces, durante o Evento Anual

Ainda que permaneçam muitas questões a serem solucionadas, é inegável que o Acordo de Paris reposiciona o debate internacional sobre mudança do clima e influenciará a atuação de governos e empresas nessa agenda nas próximas décadas.

Concluído durante a Conferência do Clima de Paris (COP 21) em dezembro passado, o Acordo de Paris reuniu o apoio de 186 países, que se comprometeram com um objetivo geral de conter o aquecimento global neste século em até 2 graus Celsius, com esforços orientados para que esse aquecimento não supere 1,5 grau Celsius. Todos os países signatários possuirão metas particulares de redução, definidas individualmente por cada nação. Essas metas serão revisadas regularmente, com vista a aumentar a ambição das medidas de mitigação e adaptação ao longo do tempo.

Em seu estado atual, as contribuições apresentadas pelos países antes da COP 21 - que fundamentaram a conclusão das negociações do Acordo - são insuficientes para o cumprimento efetivo dos objetivos de contenção do aquecimento definidos no texto final. Não é apenas essa lacuna entre os compromissos e as necessidades que preocupa a muitos: a arquitetura do acordo, que combina abordagens top-down e bottom-up e previsões mandatórias e não mandatórias, também levanta dúvidas sobre a efetividade do Acordo, principalmente quando comparado com a arquitetura do Protocolo de Quioto.

Annelise Vendramini (GVces) falou sobre as implicações do Acordo de Paris para o setor financeiro

O desafio da efetividade não tem uma resposta clara hoje. Um exemplo da dificuldade em se ter uma resposta para isso é o próprio antecessor do Acordo de Paris, o Protocolo de Quioto. Ao mesmo tempo em que o Protocolo possui uma arquitetura mais rígida no que diz respeito aos compromissos (que, em tese, garantiria efetividade), ele é politicamente inviável: sem os Estados Unidos, maior emissor dentre os países desenvolvidos (que rejeitou sua ratificação), e sem as potências emergentes (sem compromissos legais no texto), o Protocolo jamais chegou perto de ter qualquer tipo de efetividade.

A flexibilidade que gera preocupações quanto à efetividade do Acordo de Paris é a mesma que permitiu resolver o problema do engajamento global dos países, entre eles os principais ausentes de Quioto. Sua arquitetura permite a conexão entre diferentes sistemas e políticas, possibilitando trocas de resultado de mitigação entre os diversos países.

A chave para que a questão da efetividade seja respondida está menos na força legal dos compromissos de Paris e mais na sua internalização no sistema jurídico nacional e na revisão das políticas e meios para implementação dos objetivos de redução. É nesse ponto que o setor privado brasileiro pode encontrar oportunidades interessantes para acelerar sua transição para o baixo carbono e construir vantagens competitivas que farão a diferença no mercado global nas próximas décadas.

Este Acordo nos traz uma oportunidade importante para reduzir o Custo Brasil, ao incentivar o investimento em logística, energia e em infraestrutura, melhorando a competitividade do Brasil no mercado global cada vez mais preocupado com o enfrentamento da mudança do clima.

Annelise Vendramini, coordenadora do programa Finanças Sustentáveis do GVces, durante o Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol

Ainda que o governo brasileiro não dê sinais definitivos sobre a implementação dos compromissos pós-2020 assumidos em Paris, as empresas brasileiras já se movimentam para melhorar sua posição e condição futura. Um exemplo disso é o Sistema de Comércio de Emissões da Plataforma Empresas pelo Clima (SCE EPC), uma iniciativa encabeçada pelo GVces com apoio da BVRio que oferece às empresas uma experiência prática realista em mercado de carbono.

Em operação desde 2014, o SCE EPC reúne 30 empresas, que cobrem 4% das emissões nacionais de 2014, com um cap (limite) de emissões de 37,8 milhões de tCO2e (ou o equivalente a 76% do cap do SCE piloto em funcionamento hoje na região de Pequim, China). Para as empresas, participar de uma experiência assim traz aprendizados não apenas em matéria operacional, mas também dá às empresas conhecimento e capacidade para articular iniciativas e propor políticas públicas que facilitem a implementação de instrumentos econômicos para redução de emissões no Brasil.

Aron Belinky, coordenador do programa Desempenho e Transparência do GVces, durante o Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol

Nesse campo do conhecimento, outro projeto importante que une empresas, governos e sociedade civil é a Plataforma de Conhecimento em Adaptação – AdaptaClima. Fruto de uma parceria entre o GVces, o Ministério do Meio Ambiente, o Fundo Newton operado pelo Conselho Britânico, e o International Institute for Enviromment and Development (IIED), a AdaptaClima tem como objetivo sistematizar e disponibilizar informação em áreas temáticas prioritárias relacionadas à adaptação à mudança do clima, promovendo a comunicação e articulação entre quem produz e quem utiliza o conhecimento e melhorando a capacidade adaptativa do Brasil face à mudança do clima.

A simulação da EPC tem potencial de trazer aprendizado para a reflexão e a ação em matéria de precificação de carbono no Brasil. Independente do ritmo de evolução desse processo, é importante que o setor empresarial esteja preparado para conversar sobre esse tema de forma construtiva e participativa.

Mariana Nicolletti, gestora da Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), durante o Evento Anual